é. sem tempo, sem dicernimento. tá tudo embaralhado!
na falta, vai um suplemento:
Análise do filme "A via láctea" PAULO SCHETTINO.
Filme de amor explícito
A diretora Lina Chamie parte de um conceito interessante: realizar um filme sobre uma ruptura amorosa, em que toda a narrativa se concentra durante a trajetória de Heitor até a casa de Júlia, no intuito de pedir desculpas. Embora esse caminho seja curto, a cidade de São Paulo conspira contra os personagens e oferece uma série de impedimentos que os separam.
A Via Láctea é construída na chave da dilatação temporal, das digressões, da memória dos tempos juntos. Há pouca ação, quase todos os conflitos se desenvolvem na cabeça de Heitor e se materializam na cidade.
Assim, o filme inteiro aborda o amor. Pode parecer banal, mas isto vira aqui uma obsessão quase claustrofóbica: toda cena possível lembra o amor dos dois, todo pequeno objeto, toda pequena imagem falam dos dois. O amor aqui é um fato: ele não nasce, não se desenvolve nem ganha nuances; ele simplesmente existe, numa intensidade monotonamente hiperbólica.
Chamie parte então para uma narrativa abertamente adocicada e poética, na qual as repetições têm um papel fundamental. Toda cena lembrada por Heitor é retomada depois de um outro ângulo, ou com novos elementos em cena; como se a memória, confusa, tentasse reconstruir fatos e encontrar uma precisão.
Do mesmo modo, a palavra é tão importante, ou até mais, que a imagem. Mais das metades das falas ditas pelos personagens (à si mesmos, um ao outro, em off) são trechos de poemas: Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Mário de Andrade… a verossimilhança é voluntariamente abandonada, de modo que os personagens falam para si mesmos o que pensam, como se explicando para o espectador o que a imagem não se dedica a desenvolver sozinha.
O suporte cinematográfico chega a se colocar, nesse contexto, como ilustrativo das palavras. A imagem está lá para reafirmar o texto, para servir de figuras aos livros dos autores mencionados. Engraçada essa servilidade da imagem à palavra, essa impressão de estarmos lendo um poema filmado ao invés de um filme poético.
Do mesmo modo, todo sentimento é necessariamente exteriorizado e explicitado. Os painéis publicitários têm o rosto de Júlia, os túneis contém pichações de belas frases sobre a vida, o locutor de rádio reproduz falas de amor e até os trombadinhas, vejam só, filosofam antes de roubarem o relógio de Heitor: “Olhe dentro de você. Você tem que enxergar dentro de você mesmo.”
A Viá Láctea, nessa história toda, é uma das centenas de metáforas sobre a união de seres no universo. O filme, tão embriagado de amor, transita entre resultados diversos, que podem parecer desde uma transgressão lúdica da narrativa clássica (rumo à video-arte) até um amontoado cansativo de referências cíclicas de um universo onde o amor é imperativo.
domingo, 5 de outubro de 2008
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